Verbo21


Três poemas publicados na Verbo21 de novembro:

Transgressão

Não é da sua esfera minha origem, Júpiter,
nem do seu hálito minha ciência.
Se não tenho mãe, tampouco pai eu tive.

Nem tosca ramificação de torso,
nem bela espuma, fugazmente admirada.
Menos ainda mãe de carne imaculada.

Eu sou é lama do mesmo barro,
o nome das bocas em vão usurpado.
Em terra de frutos degustados
cavalgo meus leões.

Nas águas mortas, habito zonas abissais.
E às suas margens minhas pernas abro,
parindo, em jorros perenais,
meus poemas, meus demônios.


***

O som não se propaga no vácuo

Corre a noite
em Salvador.
Da janela vejo:
luzes apagam,
luzes acendem.
Bruta é a solidão
dos independentes.
Cáustico é o sorriso
dos que devoram
as horas duras,
as horas frias,
as horas mortas.
Na ausência de respostas
às perguntas que grito,
- sem lágrimas -
choro.


***

Meu poema negro

Este é meu poema negro,
fruto do não dito.
(O eco para dentro do grito contido)

Este é meu poema negro,
versos de ausência de luz.
(O grito frustro que me implode)

Este é meu poema negro,
das malditas palavras que, mudas na boca,
escorrem em meus dedos.

Este é meu poema negro,
- Ssst!!! Calem-se, palavras, quietas!
Silêncio, que eu não quero ouvir-me.
(imagem: Árvore da vida; Gustav Klimt)


Rosas para Rose

(para Rose Carrara)

No ar, o ciclone Rose gira, gira,

destroçando a dinâmica inércia dos nossos dias.

Vai Rose! Mantém seu eixo helicóide,

levanta desse chão imundo essas árvores secas de raízes tão profundas,

lança essas criaturas ao ar e gira, gira, Rose,

metamorfoseia-as em rosas de aroma doce.

Então, bruscamente, interrompe o giro, Rose,

para que as rosas caiam sobre a lama e povoem o mundo!
(Imagem: Claude monet, Jardin de Roses - 1925)

Versos Lascivos

Mata meu desejo
de ver-te
Mata minha sede
de ter-te
Veste minha pele
com a tua
Faz-me bailarina
nua
Sela tua boca
na minha
Pega. Esfrega. Aninha.
E se ao final, cansada, eu adormecer
entra nos meus sonhos
e faz-me tua
até o sol nascer

Pintura: Embrace, de Egon Schiele (1917) Clique aqui para ver o vídeo

Álbum de família: O adeus de Sissi


Minha avó queria morrer dançando
entre espadas de São Jorge e flores de Santa Bárbara
Entre seus amantes e seus amores
cantando samba antigo feito rouxinol assanhado

Os tambores

O caruru
Os tambores
O vatapá
Os tambores
O mugunzá
Minha avó morreu dançando
Girou em pião sua saia rodada
azul (e branca) azul (e branca) azul (e branca)
e seu coração abarrotado de tanta gente chorou baixinho

Caboclos travestidos de beatas acompanharam a procissão
Fogos de artifício trovejaram cascateando o céu
Os anjinhos iam à frente com asas de celofane rosa
abrindo caminho para o último canto da mulher guerreira



O descaminho das letras disléxicas

“Não há um sentido único num poema”
Haroldo de Campos

“Há algo que jamais se esclareceu: onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?”
Antônio Cícero

O descaminho das letras disléxicas


Mostrei rota das palavras,

mapa para meu rochedo

Bússola, régua, compasso, direção


Avesso,


Trilhou marginal reversa

Ignorou placas e elipses

Explorou atalhos de destino incerto


Em meio à dislogia,

(entre o dito e o inverso)

encontrou veio próprio


Entranhas expostas,

apertou a sela, pegou das rédeas

Leme livre, roubou meu Leão!

(poema escrito em proposta do curso 'Tudo ao mesmo tempo agora', Casa das Rosas, São Paulo, agosto de 2006)

Estanque elã

(Waiting for Inspiration, Anne Karinglass)

Fogem-me das mãos os versos
Negam-me as palavras
as valsas noturnas

Lápis e papel
Bigorna e martelo
Dedos e teclas

Leite seco
empedrado, hirto
- mudos gritos -

Primeiro silêncio
Segundo silêncio
Terceiro silêncio

E entre as parcas idéias:
espaços infinitos

agigantam-se e agitam-se.


My funny valentine

Para Igor
Você

Partiu-me ao meio
Ocupou metade
Fundiu-se inteiro
Criou raízes
Brotou singelo
Florou febril e
em via inversa
fez-me menina
Rasgou a couraça
Quebrou a janela
Baixei a guarda e
expus

fragilidades

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