Verbo21


Três poemas publicados na Verbo21 de novembro:

Transgressão

Não é da sua esfera minha origem, Júpiter,
nem do seu hálito minha ciência.
Se não tenho mãe, tampouco pai eu tive.

Nem tosca ramificação de torso,
nem bela espuma, fugazmente admirada.
Menos ainda mãe de carne imaculada.

Eu sou é lama do mesmo barro,
o nome das bocas em vão usurpado.
Em terra de frutos degustados
cavalgo meus leões.

Nas águas mortas, habito zonas abissais.
E às suas margens minhas pernas abro,
parindo, em jorros perenais,
meus poemas, meus demônios.


***

O som não se propaga no vácuo

Corre a noite
em Salvador.
Da janela vejo:
luzes apagam,
luzes acendem.
Bruta é a solidão
dos independentes.
Cáustico é o sorriso
dos que devoram
as horas duras,
as horas frias,
as horas mortas.
Na ausência de respostas
às perguntas que grito,
- sem lágrimas -
choro.


***

Meu poema negro

Este é meu poema negro,
fruto do não dito.
(O eco para dentro do grito contido)

Este é meu poema negro,
versos de ausência de luz.
(O grito frustro que me implode)

Este é meu poema negro,
das malditas palavras que, mudas na boca,
escorrem em meus dedos.

Este é meu poema negro,
- Ssst!!! Calem-se, palavras, quietas!
Silêncio, que eu não quero ouvir-me.
(imagem: Árvore da vida; Gustav Klimt)

1 comentários:

Fabrício disse...

Seus poemas e seus demônios.

A transgressão parece falar de algo inerente ao artesão de versos.


Gostei, vou voltar;
Fabrício

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